GRUPO SOCIALIZANDO
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A web e a democracia da credulidade

 

IHU – Instituto Humanitas Unisinos 

Grupo Socializando

Crédulos oniscientes e conspiradores desconfiados. É o paradoxo da civilização da informação. Sabemos cada vez mais, mas entendemos cada vez menos. E a realidade nos escapa por todas as partes por excesso de detalhes. Inundados com imagens, notícias, informações, agências, newsletters, fóruns, chats, blogs, pop-ups, que a web derrama sobre nós como um rio imparável. Um download transbordante que bloqueia o nosso processador crítico.

E assim, incapazes de selecionar e de avaliar, bebemos tudo o que nos é trazido pelas correntes da internet. O resultado é que o aumento dos conhecimentos e dos progressos tecnológicos, em vez de potencializarem as defesas da razão, provocam um retorno maciço de rumores incontrolados, crenças infundadas, verdades alardeadas. E charlatanismos despudorados.

Consequentemente, o abuso da credulidade popular, que parecia coisa de outras tempos, de sociedades pré-escolares, já superada pelo progressos dos conhecimentos, está se tornando novamente um fenômeno tristemente atual. Com o favor da web, que pulula de falsos cientistas e de autênticos vigaristas. Curandeiros, vendedores, camelôs, convencedores, arruaceiros, falastrões, pregadores, mental trainers, somatopsicólogos, videntes digitais e outros traficantes de fraudes que se assemelham tanto aos impostores que enfureciam a sociedade pré-iluminista. Aqueles que vendiam em praças públicas os seus específicos, ou seja, preparados milagrosos capazes de parar o tempo, vencer as doenças, restaurar o vigor do eros, fazer ficar rico.

Como o Dr. Dulcamara, protagonista do Elisir d’amore, de Gaetano Donizetti, que se orgulha dos portentos infinitos do seu específico “simpático, prolífico, que move os paralíticos, manda para casa os apopléticos, os asmáticos, os asfícticos, os histéricos, os diabéticos”.

Até o fim do século XVI, publicavam-se tratados para alertar as pessoas contra os falsos doutores. Eles eram chamados com desprezo de “catedráticos de novas ciências”. O célebre médico romano Scipione Mercuri escreveu naqueles anos um livro intitulado Dos erros populares da Itália, em que dedica um capítulo inteiro aos imbróglios “que são cometidos contra os doentes nas praças”. Porque era justamente no lugar público por excelência que os charlatães colhiam vítimas, entre ingênuos e tolos.

E o seu contemporâneo Thomas Garzoni, na sua obra-prima A praça universal, faz um censo de 544 profissões no mundo, dos quais uma boa parte tem a ver com fraudes e falcatruas. Hoje, a praça universal se deslocalizou para a internet. Onde os charlatães, expulsos da cultura moderna, a da escola, da ciência e das universidades, vingam-se e viralizam a web. Porque, se é verdade, como diz Edgar Morin, que a rede promove uma nova consciência planetária, também é verdade que, ao menos por enquanto, a quantidade de informação disponível online é inversamente proporcional à qualidade. E corre o risco de gerar um niilismo cultural que torna difícil distinguir o verdadeiro do falso.

Como mostrado pelo sociólogo francês Gérald Bronner, a nossa democracia está se tornando a democracia da credulidade. Porque, onde a hierarquia dos saberes desmorona e o princípio de autoridade se pulveriza, povoam as explicações simples e, principalmente, monocausais de uma realidade que, ao contrário, é cada vez mais complexa e multifacetada como a contemporânea. Soluções consolatórias que nos dão a sensação reconfortante de entender alguma coisa, de saber muito, de não nos deixar enganar pelas versões oficiais dos fatos.

Quer se trate de transgênicos, vacinas, segurança alimentar, biológica, corantes, pesticidas, o mínimo denominador comum é uma síndrome de complô que provoca uma desconfiança crescente em relação a todas as autoridades, científicas ou políticas. Somos cada vez bipolares. Por um lado, desconfiados em relação aos vários especialistas, pesquisadores, professores, jornalistas ou estudiosos, e, por outro, prontos para dar fé a todos os rumores que correm na rede.

Assim, o tecido coletivo da confiabilidade e da credibilidade parece estar cada vez mais comprometido. A tal ponto que, na França, onde a ciência é uma fé, e a razão, uma religião, de acordo com um estudo recente, 43% das pessoas pensam que a pesquisa envolve mais riscos do que benefícios.

E, a partir de uma pesquisa da Gallup, deste ano, emerge o fato de que a confiança dos cidadãos estadunidenses nas instituições passou de imponentes 80% dos anos 1960 para alarmantes 10% de agora.

Política, religião, jornais, televisão, escola, universidade, indústria. Não se salva ninguém. Só estão piores os revendedores de carros usados. E cresce exponencialmente o preconceito anticientífico, especialmente sobre temas que tocam teclas sensíveis como a saúde. O caso mais emblemático é o das vacinas, que, depois de nos ter libertado de tantos males, são apontados como a causa de outros tantos males. Uma demonização irrazoável que começou em 1998, quando, de forma incauta, foi publicado na Lancet um artigo infeliz, que depois se revelou fraudulento, do ex-médico Andrew Wakefield, que defendia a existência de uma correlação entre a difusão da vacina trivalente MMR e o aumento do autismo. Era tudo uma farsa.

Mas, apesar das desmentidas do General Medical Council britânico e o repúdio da própria Lancet, que removeu o texto, as vacinas entraram em colapso. Na realidade, parece que o verdadeiro propósito da publicação era o de lucrar com uma vacina alternativa patenteada pelo novo Dulcamara.

Além disso, a Court of Protection inglesa constatou que a mãe de uma das crianças autistas na origem do caso mentiu. Mas o inefável Wakefield voltou recentemente às honras da crônica com o documentário autocelebrativoVaxxed: From Cover-up to Catastrophe [Vacinados: do acobertamento à catástrofe], que, em abril, deveria abrir oTribeca Film Festival, de Nova York, dirigido por Robert De Niro, compreensivelmente sensível ao tema por ser pai de um menino autista. Mas a fraude foi desmascarada por um grupo de cientistas, e De Niro cancelou o filme.

Porém, o risco da vacina, para muitos, tornou-se um dogma 2.0. Até porque são muitos que pensam que, por trás disso, estão apenas os interesses das empresas farmacêuticas. Assim, um mapa de falsas evidências e de pseudoconhecimentos corre o risco de anabolizar a web, tornando difícil distinguir entre verdade e impostura. A todos nós cabe a tarefa de civilizar a rede, fazendo-a sair do estado de natureza digital.

Marino Nicola, antropólogo italiano, professor da Università degli Studi Suor Orsola Benincasa, emNápoles, Itália. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 20-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte: IHU

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Matemática sem Partido

Correio da Cidadaniacorreio da cidadania

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– Bom dia, professor, aqui é Luíza, do Departamento de Desideologização de Material Didático da editora.

– Bom dia, Luíza. Em que posso ajudar?

– É sobre algumas modificações que precisamos que sejam feitas no seu livro.

– Mas eu sou professor de matemática, filha…

– Sim, mas tem uns problemas.

– Meu livro é para o ensino fundamental…

– Então. O seu caso é simples, o senhor vai ver.

 

– Fale…

– Logo no início, nos exercícios de adição. Tem o exercício 6 na página 23, “João não conseguia dormir, então começou a contar os carneirinhos que, na sua imaginação, pulavam uma cerca”.

– E qual o problema?

– O problema é que os carneirinhos pulando a cerca são uma crítica velada aos enclosementsingleses e uma referência à acumulação primitiva do capital. Propomos mudar para “franguinhos entrando no navio, que o pujante agronegócio brasileiro exporta para a Europa”.

– Ninguém conta frangos para dormir.

– Justo, por causa da ideologia que sataniza o produtores rurais que põem comida na nossa mesa. Tem outro, mais para frente, na página 32, o exercício 7 diz que “Rita tinha 18 bananas e comeu 4”. Bananas é uma referência ao Brasil como uma Banana Republic, não pode.

– Troca por laranjas.

– Aí seria uma crítica aos prestadores de serviço financeiros que ajudam os empresários a impedir que o governo tome seu dinheiro através dos impostos. Trocamos por abacaxis.

– Abacaxis? Ninguém come quatro abacaxis.

– Sim, também trocamos “comeu 4” por “vendeu 4 livremente realizando um justo lucro por seu esforço”.

– As crianças de 8 anos vão entender isso?

– Vão entender se for explicado, se a ideologia deixar de ocultar delas como as relações comerciais fazem justiça a quem produz.

– Ah, tá. Mais alguma coisa?

– Tem mais umas coisinhas, eu mando por e-mail. Mas o mais grave é a parte final do livro. Precisamos marcar uma reunião para rever os capítulos 7 e 8.

– Divisão?

– Isso. Divisão é um conceito marxista que não pode ser usado para doutrinar as criancinhas.

– Mas como as crianças vão aprender aritmética sem divisão?

– Nossos especialistas estão finalizando uma proposta. A ideia geral é mostrar que a divisão pode ser correta, desde que a operação reflita que, por exemplo, 100 reais divididos por 100 pessoas resultem em 99 reais para uma e o real restante dividido entre as outras 99.

– Mas isso acaba com a Matemática!

– Acaba com a Matemática Igualitária e Comunista que imperou até hoje, professor, e a substitui por uma matemática mais justa! Já temos até um projeto de lei para ser apresentado ao Congresso, tornando obrigatório o ensino da Matemática Meritocrática!

 

“Paulo Candido é apenas um observador inocente. Vive no Rio, onde faz samba e amor até mais tarde”.

Fonte: Correio da Cidadania

http://www.correiocidadania.com.br/

O que aconteceu na Turquia? Por que os militares tentaram tomar o poder?

Opera Mundi

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Após uma série golpes militares reais no passado, o povo turco agora reage a qualquer sinal de intervenção militar com a mesma preocupação imediata de um paciente pós-câncer que descobre um pequeno nódulo

O que aconteceu? O que precisamos saber?

Na noite de 15 de julho, um grupo de soldados turcos assumiu o controle de várias instituições em Istambul e Ancara, no que parece ter sido uma tentativa de golpe mal planejada. As forças policiais – auxiliadas por um grande número de cidadãos ordinários turcos– conseguiram frustrar o golpe. Chamados às ruas pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, enormes grupos de homens tomaram as ruas para impedir as unidades do exército de entrarem em prédios governamentais. O golpe foi declarado encerrado na manhã do dia 16 de julho.

Então, o povo turco apoia o presidente Erdogan?

Graças a uma longa história de golpes militares, o ódio do povo turco a intervenções militares é muito maior do que sua aversão ao seu líder autocrático. Turcos de todos os espectros políticos compartilham o mesmo sentimento de que até uma péssima democracia é melhor do que um governo militar.

Por que os militares tentaram tomar o poder?

A explicação muda de acordo com em quem você escolhe acreditar.

Uma declaração supostamente feita pelos militares alega que seu propósito era “reinstituir a ordem constitucional, a democracia, os direitos humanos e as liberdades”. Porém, o presidente Erdogan e sua rede midiática pró-governo bombardearam o povo turco com alegações de que o golpe foi obra de um grupo clandestino, que teria infiltrado todos os órgãos estatais, organizado por um clérigo muçulmano chamado Fethullah Gülen, que é aposentado e vive na Pensilvânia. Pouca evidência sólida dessa conspiração foi apresentada até o momento.

Gülen negou qualquer envolvimento. De fato, ele e outros grupos oposicionistas alegam que o golpe foi, na verdade, orquestrado por Erdogan como desculpa para subjugar a oposição política e definitivamente mudar o sistema governamental da Turquia para uma presidência executiva (o que, na prática, tornaria Erdogan um sultão moderno). Essa explicação também não é inteiramente convincente – a alegação de que Erdogan planejou um falso golpe contra seu próprio governo para extirpar a oposição de dentro do exército e do Supremo Tribunal é muito grande para se levar em conta.

O que o povo turco acha?

A Turquia está extremamente polarizada. Metade a população acredita em qualquer coisa que o presidente diga, enquanto a outra metade tende a acreditar no oposto. Posições a favor e contra o regime de Erdogan tornaram-se tão enraizadas que não há como convencer qualquer lado com evidência e lógica.

Erdogan é como quiabo: algumas pessoas o amam intensamente; para outras, ele é nojento. Ninguém na Turquia é imparcial quando se trata do presidente.

De onde vem essa divisão na opinião pública?

Clivagens sociais tradicionais na Turquia incluem religiosos contra laicos, turcos contra curdos e periferias pobres contra centros urbanos ricos. Junto com a Primavera Árabe e a investigação de corrupção de 2013, surgiu uma nova cisão: pró-Erdoganismo e anti-Erdoganismo.

O ponto culminante dessa separação ocorreu em maio de 2013. Erdogan queria demolir um parque da era republicana na praça Taksim de Istambul e reconstruir um quartel da era otomana, que também incluía uma mesquita. Apesar de a Praça Taksim ser um símbolo do kemalismo secular de esquerda, muitas pessoas religiosas juntaram-se ao que, depois, ficou conhecido como a Revolta do Parque Gezi para preservar o parque como ele é. Naquele momento, secularistas, kemalistas, curdos, alevitas e grupos religiosos – incluindo o Movimento Gülen – cristalizaram sua coalizão contra Erdogan.

Infelizmente, esse setor da sociedade turca só é capaz de concordar em sua oposição a Erdogan, e em nada mais. Portanto, eles não foram capazes de criar uma aliança política que pudesse diminuir o forte controle dele sobre o poder.

Fonte: Opera Mundi

http://operamundi.uol.com.br/

 

Escalada do terror

Felipe Augusto servletrecuperafoto

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Os últimos dias se têm mostrado cheios de acontecimentos tumultuosos. O terrorismo voltou a dar seu recado na França. Na Turquia houve tentativa de golpe de Estado. Em Fortaleza, morte de policiais e incêndio de vários ônibus. Estamos em meio a tudo isso, anestesiados num estado de alerta ameaçador e preocupante.

Faltando pouco mais de duas semanas para as olimpíadas do Rio, não se descarta o medo de um ataque terrorista ao País. Com todas as atenções voltadas para cá, turistas e impressa em peso, um atentado seria um prato cheio para quem parece buscar holofotes. Infelizmente, o objetivo obscuro e trágico, da ideologia terrorista, segue causando vítimas e mais vítimas.

A força silenciosa e o poder camuflado desses grupos resultam numa ação eficiente e devastadora. E a estratégia bem organizada e programada concede sua proliferação e chama a atenção de jovens sedentos de um ideal revolucionário. Combinação que até agora tem dado certo.
Uma vez em campo, os terroristas cumprem seu objetivo. Ao mesmo tempo em que é preciso entender que há todo um contexto social em que os indivíduos componentes se encontram imersos, faz bem saber que existem simpatizantes e ingressantes provenientes de outras culturas, posto que a ideologia terrorista não faz distinção de nacionalidades, religiões ou povos. Todos que não fizerem parte do seu propósito são inimigos.

Imagem: Internet 

O terrorismo é um dos muitos pesadelos atuais. Um pesadelo que cada vez mais está se tornando realidade. Indubitavelmente, é preciso que as forças de segurança estejam preparadas e que a segurança seja reforçada nos lugares que estão sob alerta.

Entretanto, essa solução é momentânea e superficial. Há algo bem mais profundo e complexo que impulsiona essa onda de barbárie. A profundidade abstrusa não será estancada da noite para o dia nem com polícia ou exército. Os dados gritantes que estão aí apontam para um estado de alerta global. Infelizmente, estamos reféns do terror.

Se a perca dos territórios invadidos estava sendo motivo para considerar o enfraquecimento do Estado Islâmico, os últimos atentados mostram que não, o EI está ficando mais forte e mais expansivo. O EI ocupa territórios, tem infraestrutura, tem armas, então é preciso confrontá-los. E depois combater a ideologia radical e fundamentalista que é o alicerce do EI.

A carência mundial de novas ideias revolucionárias, quando encontra aparato em extremismos como esse, se preenche. E essa luta do “bem” contra o “mal” seduz, sobretudo, os jovens. É preciso barrar a escalada do terror, antes que novos objetivos sejam alcançados.

O Brasil é viável?

 Correio da Cidadania correio da cidadania

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O Brasil tem grandes extensões de terras férteis e um clima muito favorável para a agricultura. Suas reservas de minérios de valor estratégico são das maiores do planeta e as fontes renováveis de energia colocam o país em posição privilegiada.

 

Antes da desindustrialização promovida a partir de 2003, a indústria brasileira era diversificada e integrada e o país tinha estabelecimentos industriais detentores do certificado de qualidade ISO 9000 em maior número do que a Argentina, Uruguai e Chile somados.

Em 2014, o PIB brasileiro foi estimado pelo IBGE em cerca de 1,2 trilhão de reais, o que situava a economia do país entre as 7 maiores do mundo.

Contudo, naquele mesmo ano, o PNUD (programa da ONU para o desenvolvimento) colocou o Brasil em 75º lugar numa lista de 177 países classificados pelo IDH (índice de qualidade de vida). Nessa lista, o Brasil fica em posição inferior à de países como Cuba, Tonga, Panamá e Malásia.

Nos últimos três anos a economia brasileira definhou, o país desindustrializou-se e a qualidade de vida piorou a ponto de se refletir nos cada vez mais frequentes episódios de guerrilha urbana a que temos assistido. Não é exagerado dizer que o Brasil tem-se afundado ainda mais num abismo de índole ética, econômica e social.

Para escapar desse abismo devemos, antes de tudo, aceitar a triste realidade e reconhecer que o país tem sido governado por políticos incapazes e corruptos – e que, com políticos assim, nenhum será viável. Jamais!

Refiro-me, aqui, à grande maioria dos políticos, não importa de que orientação partidária, se é que no Brasil de hoje existe alguma orientação partidária, que não seja a de mesquinhos interesses particulares e paroquiais.

Acredito que a causa primeira do atraso brasileiro é a deficiência do ensino em níveis básico e médio, que deságua na pobreza cívica, moral e cultural, manifestada na má qualidade dos políticos e no despreparo dos eleitores para escolher bons representantes.

Tal situação é especialmente inquietante porque tem a dinâmica de um círculo vicioso, uma vez que o ensino depende de programas elaborados no Ministério da Educação e de orçamentos aprovados pelo Congresso, ficando, portanto, à mercê de políticos quase sempre desqualificados para as funções que exercem.

Despreparados para lidar com as grandes questões da sociedade e da economia, os políticos tratam prioritariamente de seus interesses particulares, que consistem em assegurar a própria sobrevivência política, para garantir a afluência de seus familiares e vantagens para os seus pequenos mundos. Então, com o objetivo de se enraizarem no centro do poder (Brasília) partem para fazer o que, impropriamente, chamam de articulação política, o que não raro significa criação de partidos de aluguel, para receber polpudas verbas do Fundo Partidário e nada realizar que seja de interesse para o país.

E pior, apelam para a torpe barganha conhecida como toma lá, dá cá que, em última análise, está na origem de medidas despudoradamente tomadas em benefício próprio, como esse aumento salarial que acabam de propor, que custará cerca de R$ 60 bilhões aos cofres públicos.

Cada partido de aluguel desses sempre tem no parlamento pelo menos um representante pronto a vender seu voto, contribuindo para desvirtuar o papel do Congresso e desfigurar a democracia.

O fato é que o Brasil não se desenvolverá enquanto o Poder Legislativo não for capaz de entender a realidade brasileira, a fim de formular leis baseadas em projetos do Poder Executivo, visando à definição de uma verdadeira política de desenvolvimento nacional, com objetivos setoriais coerentes e realistas, a serem buscados – nos casos de serviços públicos (eletricidade, transportes e comunicações, abastecimento de água etc.), por parcerias público-privadas e – para a produção de bens de capital e de consumo; e serviços pessoais – por empresas privadas, apoiadas pelo governo e obedecendo a rigorosos critérios de qualidade e competitividade.

É desnecessário assinalar que nada disso deve depender de propinas, nem do descarado toma lá, Dá cá, usual em Brasília.

Afora um pequeno grupo de parlamentares dignos e diligentes, a Câmara é dominada por umCentrão, submetido a um sodalício de malfeitores, que até recentemente eram chefiados por um psicopata cínico e frio, que se tornou célebre por sua expertise nos ramos da extorsão de propinas, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e ocultação de patrimônio.

Ao que se diz, o poder desse delinquente vinha de um sórdido jogo de chantagens, em que ele sabia (e sabe) tudo sobre os políticos de Brasília – e estes sabem que ele sabe tudo a seu respeito. Assim, foi só depois de oito meses de manobras ignóbeis promovidas pela tropa de choque desse chantagista que o Comitê de Ética da Câmara aprovou a cassação de seu mandato.

Entretanto, misteriosamente, a sua influência em Brasília permanece alta, inclusive junto à Presidência da República, pelo que se depreende do fato de que ele mantém como presidente interino da Câmara um deputado insignificante, despreparado e mesmo grotesco. E, ainda, colocou na liderança do governo naquela casa um réu em três ações penais – e acusado em outras tantas, sendo uma por tentativa de assassinato.

Pois são esses biltres que, ao serem pilhados em suas patranhas, sempre responsabilizam a “imprensa golpista”, como eles costumam chamar as vozes de qualquer oposição…

Ora, é óbvio que partidos de aluguel, tropas de choque e políticos alienados, alguns; ou primitivos e embusteiros, quase todos – como aqueles que, em burlesca sessão da Câmara,votaram “sim” pela destituição da presidente, nunca entenderão nada nem proporão leis que não sejam do mesquinho e imediato interesse de seus pequenos mundos.

De fato, naquela sessão, pouquíssimos foram os deputados que votaram com base em argumentação objetiva e convincente. A esmagadora maioria invocou “argumentos” tais como “sim, pela honestidade do meu pai e do meu avô” ou “sim, pela felicidade do meu neto, que vai nascer daqui a um mês”, ou, ainda, “sim, pelo povo da minha (cidadezinha que ninguém conhece)” etc. etc. Nenhum dos votantes parece ter percebido que esses “argumentos” nada tinham a ver com o objeto da votação, podendo ser usados para “aprovar” ou “desaprovar” qualquer coisa…

E, como numa ópera bufa, poucos dias depois daquele ridículo espetáculo, soube-se que o pai do deputado que se tinha vangloriado da “honestidade de seu pai” acabava de ser preso em Minas Gerais, acusado de cobrar uma propina de um milhão e meio de reais, quando foi secretário do governo do senhor Anastasia!

Quanto ao Poder Executivo, numa lista de mais de 20 ministros, contam-se nos dedos de uma mão aqueles honrados e competentes. Os outros são leigos e ignaros – ou ostentam prontuários que ficariam melhor num arquivo policial do que numa lista de ministros. Assim, nenhum país poderá ser viável!

Sobra o Poder Judiciário, que vem cumprindo dignamente a sua missão. Talvez esteja aí a chave para a viabilização do Brasil e sua entrada no grupo dos países desenvolvidos.

Para isto, o Supremo Tribunal Federal deveria exercer, em regime de exceção, o seu papel de Corte Constitucional, com poderes acrescidos para atuar no sentido de promover uma reforma constitucional.

A partida para isto seria dada pela cidadania, por meio de uma campanha semelhante à que deu origem à Lei da Ficha Limpa, com uma petição assinada por mais de um milhão de cidadãos e enviada ao STF através da Avaaz.com (comunidade de campanhas online), por exemplo.

Tal iniciativa – uma vez amplamente divulgada pela mídia – poderia levar aquela corte a considerar seriamente a proposta de suspender imediatamente os mandatos de todos os parlamentares fundamentadamente acusados de fraudes, até que o Ministério Público e a Polícia Federal completassem as investigações e o próprio STF os julgasse, para eliminar definitivamente os culpados.

Os que ficassem teriam a responsabilidade de estabelecer normas rigorosas para a quantificação e justa distribuição dos recursos do Fundo Partidário – e de instituir uma cláusula de barreira, para limitar o número de partidos representados no Congresso.

Em seguida, o próprio STF criaria um Grupo de Trabalho formado por alguns (poucos) juristas e cientistas políticos conhecidos e respeitados na Academia.

Este Grupo de Trabalho elaboraria um projeto de reforma constitucional e de leis complementares, voltadas para uma reforma política, incluindo uma nova lei eleitoral.

Tal projeto seria submetido às comissões de constituição e justiça da Câmara e do Senado para pequenos ajustes, respeitando normas e regras previamente estabelecidas pelo STF,  para que se não desfigure – em função de interesses paroquiais, corporativos ou pessoais – o projeto original, preparado pelo Grupo de Trabalho.

Joaquim Francisco de Carvalho é engenheiro, com licenciatura em física, mestre em Energia Nuclear e doutor em Energia.

Fonte: Correio da Cidadania

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11765:2016-06-23-13-48-27&catid=25:politica&Itemid=47

Qual a herança da Revolução Francesa?

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A Revolução Francesa finalmente acabou. Ao menos para os intelectuais e políticos (socialistas ou conservadores) que outrora a invocavam no hexágono francês em nome da République. Já faz algum tempo, é verdade.

 

Em 1889 a burguesia francesa se deixou liderar por uma ala republicana, particularmente depois da aventura do ex-ministro da Guerra General Boulanger, que tentara fazer o seu Coup d’État.

 

O chamado boulangismo provocou a resistência republicana e condicionou a transformação da Revolução Francesa numa espécie de mito fundador da Terceira República.

 

Ideia de Revolução

 

A maioria dos homens e mulheres daquela época concordava com certa ideia da Revolução. E fundamentalmente acordavam entre si que um processo revolucionário de importância europeia, talvez mesmo mundial, havia acontecido na França, independentemente da visão que tinham dele.

 

As bases daquele “acordo” haviam sido assentadas não por socialistas, mas por liberais. Thiers, Guizot, Mignet e a impressionante Madame de Stäel-Holstein, uma aristocrata que mantinha um círculo de pensadores ao seu pé, aceitaram o processo como um bloco.

 

Mignet, por exemplo, revelou que o sujeito daquele processo tinha que ser a classe média (entenda-se: a burguesia). Mas para se manter, ela precisou mobilizar o povo e este reivindicou para si o governo. Eis a chave que abre a porta à explicação do terror. O papel atribuído aos jacobinos era o de destruir o Antigo Regime. O de Napoleão Bonaparte era erguer a nova sociedade diante de uma Aristocracia estabelecida que se ria do parvenu e de sua nobrezafake.

 

Esse era, grosso modo, o modelo de explicação histórica construído no período da Restauração (1815-1830). Ele foi herdado por Marx, pela esquerda jacobina do século seguinte e pelos comunistas.

 

É verdade que entre os marxistas houve extenso debate e em geral eles deixaram o individualismo burguês e os direitos humanos em segundo plano. Não se apropriaram de fato da Revolução Francesa. Eric Hobsbawm em seu livro Ecos da Marselhesa diz explicitamente que os marxistas mais retiraram do que deram àquele modelo de explicação liberal de 1789.

Segundo Centenário

 

Conta-se que na época do bicentenário o líder chinês Deng Xiao Ping teria dito que ainda era cedo para se falar da Revolução Francesa. Na verdade, ele queria dizer que não se devia falar de outra revolução ainda mais recente: a chinesa.

 

O segundo Centenário da Revolução (1989) se deu no sentido inverso à celebração do primeiro. O contexto era outro: o neoliberalismo avançava, a socialdemocracia girava à direita, o Estado de Bem Estar foi acometido por uma crise fiscal e, finalmente, o ano de 1989 coincidiu com a queda do Muro de Berlim e o fim do socialismo real.

 

Neste ínterim a historiografia já havia atacado o modelo liberal da Revolução que surpreendentemente ela julgava ser “marxista”. É importante lembrar que depois de Outubro de 1917 a herança da Revolução Francesa se misturou à da Revolução Russa. As comparações históricas eram quase inevitáveis.

 

A revisão historiográfica tentava agora mostrar que na longa duração a Revolução tinha sido só uma derrapagem na história. A França já vinha se desenvolvendo num sentido capitalista antes e seu verdadeiro take off industrial só aconteceu no Segundo Império (1852-1870), o de Napoleão III. Além disso, o revisionismo visou destruir a ideia de uma luta entre a burguesia e a nobreza.

 

Sem entrar no mérito intrínseco ao debate historiográfico, a questão que desejo discutir aqui é: se é verdade, como diz Hobsbawm, que muitos dos historiadores revisionistas miraram nos comunistas, mas acertaram nos liberais clássicos, por que isso foi possível? A pergunta é relevante porque aqueles historiadores não eram, salvo exceções, assumidamente de Direita.

 

A burguesia liberal que havia aceitado a Revolução em bloco, agora cedia lugar à barbárie, na expressão de Vito Letizia. 1789 tornava-se desnecessário. Simples assim.

 

Hobsbawm fornece um conjunto de elementos explicativos para isso. Entre eles destaca que os historiadores da tradição republicana eram professores de província e não intelectuais da mídia; e que Paris deixara de ser a cidade das revoluções para se tornar o lócus enobrecido da classe média.

A barbárie administrada

 

Ainda assim, a pergunta central persiste sem resposta: por que, apesar disso, as classes dominantes europeias, acostumadas a dominar com uma hegemonia assentada em princípios liberais e no consentimento de seus “inferiores sociais”, passaram a desdenhar aquilo que parecia o arcabouço irrenunciável do “povo francês”? Refiro-me à democracia eleitoral, às liberdades democráticas e a uma economia de mercado convenientemente regulada para sustentar a cidadania social. Como isso foi possível?

 

Não há uma explicação única. Os sistemas representativos que o historiador revisionista François Furet opunha à democracia direta das ruas, em sua explicação da Revolução Francesa, soçobram dia a dia. Os tecnocratas das principais instituições que comandam a economia europeia não são eleitos. A economia foi naturalizada e como disse Vito Letizia, o governo deixou de ser “político” e um novo vocabulário incorporou a ideia de “governança”.

 

Não se elege alguém para arbitrar a luta de classes, mas para administrar coisas. A gestão é eminentemente técnica e os contestadores são jogados no limbo dos ideólogos. Curiosa inversão: os marxistas criticavam a ideologia como uma consciência invertida e indicavam uma futura “administração das coisas”. Mas a superação da política seria resultante da revolta universal do proletariado e não a resultante de uma reengenharia de gestores.

 

No final da Segunda Guerra ainda seria possível ver o conservador Charles De Gaulle, o comunista Maurice Thorez e o futuro presidente socialista François Mitterand num mesmo lado. Já no século 21 o filme de Robert Guédiguian Le promeneur du champ de Mars (no Brasil: “O Último Mitterrand”) exibia a melancólica constatação de que Mitterrand se considerava o último presidente da França. Depois dele, viriam os gestores… E para evitar o mal maior da família Le Pen os franceses tiveram que optar por Jacques Chirac, pelo playboy envelhecido Sarkozy e, finalmente, o ennuyant François Hollande, tedioso até em suas aventuras noturnas.

 

Eu acrescentaria finalmente outro elemento para o descrédito daquele modelo liberal da Revolução Francesa: quem é o “povo francês”? Para os netos de argelinos o que representam os ideais de 1789 ensinados na escola?

 

O mesmo poderia ser perguntado para os povos de Espanha ou aos imigrantes em qualquer canto da Europa. As principais seleções “nacionais” da Eurocopa são conjuntos de estrangeiros naturalizados em busca de fama ou dinheiro, embora alguns tentem cantar o Hino nacional que ainda antecede os jogos de futebol.

 

Ao mesmo tempo, surge na contramão dos grandes países o nacionalismo dos pequenos. Sucessivos plebiscitos são inventados para afirmar o sentimento nacional. Não é um paradoxo, mas as duas faces de um processo que se totaliza exatamente nesses momentos que parecem negá-lo.

 

A globalização gera uma classe média sem pátria, mas os trabalhadores em seus subempregos acham que ainda têm. O capital abre fronteiras enquanto uma classe operária ressentida tenta encontrar a identidade no seu pequeno torrão natal.

 

Seria ainda possível uma ideologia capaz de amalgamar um “povo” em qualquer grande país da Europa? E se for possível, estaria ela no repertório de valores de 1789?

 

Afinal, qual a Herança da Revolução Francesa?

 

Nota:

 

1) Este texto foi escrito para um debate sobre o livro “Diálogos com Vito Letizia – As origens das aspirações modernas de liberdade e igualdade”, organizado em junho de 2016 pelo coletivo Cemap-Interludium. Entre as várias intuições do autor da obra há uma que merece ser destacada. Ele estabelece um cotejo entre a comemoração do primeiro centenário da Revolução Francesa. Eu desenvolvo exclusivamente essa comparação como veremos a seguir.

 

2) Vito Letizia diz literalmente que “o socialismo é estranho à Revolução Francesa”.

 

 

Lincoln Secco é historiador.

Fonte: Correio da Cidadania

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11835:2016-07-19-00-33-10&catid=72:imagens-rolantes

 

A Filosofia e o Sagrado: fundamentos e significativo sinal para os tempos atuais

Isaias Mendes Barbosa*13566965_1380277941985526_8079302081779231078_n

Grupo Socializando

Na Tradição Filosófica Ocidental, contemplar o nascimento e desabrochar da Filosofia, desde a Grécia Antiga, é uma tarefa de sublime importância, ainda hoje. Principalmente para quem se compromete apaixonadamente com a realidade atual e pretende trazer para Contemporaneidade, questões novas, inéditas, ou, na verdade, esquecidas e até certo ponto desprezadas, porém tão necessárias, no nosso tempo. Por isso, retomo um elemento significativo da tradição filosófica ocidental que perpassou boa parte, se não quase toda, dessa referida trajetória filosófica. Falo da experiência filosófico-poética-mítica que tiveram os primeiros pensadores naturalistas e que até certo ponto deram continuidade os demais, como Platão, Aristóteles, Agostinho, Pico Della Miradola, Hegel e Giambattista Vico. Essa experiência significativa tem sua expressão ainda hoje, apesar de precisar ser revitalizada e disseminada.

O Sagrado é este elemento que constituiu a trajetória originária da Filosofia e sem o qual não teríamos como entender com riqueza e profundidade o valor da Filosofia. Não é que esse termo (Sagrado) tenha sido descrito como categoria filosófico-temática propriamente dita, porém, ele fez parte em suas propriedades e significados da Filosofia no seu desabrochar e na sua mais elevada reflexão. Quem sabe tal elemento tem faltado nas reflexões atuais cotidianas!?

A experiência filosófica não começa com Aristóteles, apesar de atingir neste uma conceituação reflexiva profunda. Porém, ela começa com os pré-socráticos, ou melhor dizendo, com as primeiras comunidades periféricas, a saber, os religiosos, míticos, poetas e políticos da Grécia Antiga. Todavia, basta, aqui, considerar essa experiência a partir dos pré-socráticos.

Ela inicia na percepção de elementos da natureza apreendidos e valorizados na reflexão filosófica como Sagrados, ou originalmente dizendo, Divinos. Tais elementos da Natureza são apreendido numa profundidade tão grande que chegam a ser definidos como arché da physis, isto é, como os princípios primeiros e fundamentais de todas as coisas, aqueles que apreendem a essência das coisas que são, e pelas quais não deixam o seu extrato, ou seja, não deixam de Ser, mas regem, orientar, impulsionam e governam o ser elementar de todas as coisas. Cada pensador compreendia essa essência (apreendida por mim como sagrada) de uma forma original e particular.

Para Tales era a água, ou o elemento úmido aquilo que era fundamental em todas as coisas. A experiência com o sagrado era tão convincente para ele que o mesmo chegou a afirmar que “todas as coisas possuem deuses”, porque todas as coisas possuíam esse elemento húmido, e que portanto poderia provir de uma essencial fundante metafísica. Com Anaximandro esse elemento sagrado é denominado de á-peiron, isto é indeterminado, algo sem limites, que possuíam as mesmo valor divino. Já para Anaxímenes é o ar infinito, uma espécie de sopro vital.

Se nos pré-socráticos esse vínculo da reflexão filosófica com o Divino ou o Sagrado era algo intrínseco, com Platão não é diferente. A experiência da regência do Cosmo e da Pólis grega, a partir de uma realidade supra-sensível, não descuida de uma ligação com o Divino. Pois se na ordem hierárquica dos seres ideiais tanto os deuses são proprietários de todo o saber divino, como o UNO e a DIADE são elementos ideais essenciais e relacionais, de onde se originam o igual e o diferente, o maior e o menor, o idêntico e o distinto, de todas as coisas que são, em variados graus, por participação. Daí é que a enteléquia humana pode apreender o Ser originário de todas as coisas, pois o homem (e não a mulher-visão preconceituosa da época), entre os diversos seres, é a personalidade capaz de se relacionar e conhecer as coisas no seu substrato e mais elevado.

Em Platão não podemos descuidar das formas poéticas e analógicas divinizadas de compreender e descrever a realidade. Esse é um elemento marcante do platonismo que advém até nossos tempos. Se em Platão temos tal ligação como o Sagrado, compreendido ideal e supra-sensivelmente, em Aristóteles não podemos deixar de constatar tamanha ligação, porém menos constante de a do seu mestre. O conhecimento é dadiva dos deuses, portanto é algo divino e sacro que os homens podem possuir. Isso faz o homem semelhante ao deus grego. Na ordem metafísica das coisas existe o motor imóvel que ele chega a chamar de deus, que move todas as coisas e inclusive a outros motores auxiliares, as constelações esféricas e os demais seres, sem sair de si e sem mover um dedo se quer. Abaixo desse princípio Sagrado, em algum lugar da hierarquia metafísica estão os deuses. E assim se manifesta esse vínculo com o Divino.

Em Santo Agostinho esse vínculo com o Sagrado atinge uma orientação particular, isto é, Cristã. Deus como Sagrado é o fundamento da existência, vivencia e vitalidade de todas as coisas. A pessoa humana é o ser particular que possui um elemento diferencial na hierarquia do criado: a razão, a inteligência e a fé. Neste pensador a realidade é apreendida partir de uma essência sagrada uma e trina, que de modo comunitário e por vontade amorosa, cria todas as coisas e concede a todas as coisas a sua verdadeira essência e felicidade quando elas se voltar para o seu Criador, pela contemplação e comunhão sagrada.

Em Pico Della Mirandola a experiência com o Sagrado transcende as barreiras da instituição Igreja Católica e do tempo histórico. É a força sagrada de Deus que ilumina e conduz a felicidade ou paz teológica todas as pessoas, por diversos caminhos e diversos estágios histórico-culturais e místicos da vida. Por meio dessa ação sagrada de Deus, a humanidade até certo ponto não se contradiz ou se nega, mas entra em concordância com uma mesma Verdade, Deus, o BELO de todos os seres belos.

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Hegel não segue a dinâmica da harmonia comum pela qual caminha a humanidade e as religiões, como sustentou Pico, porém sua experiência com o Sagrado em um sentido filosófico vai além de uma convergência para Deus. É o próprio Espírito que se manifesta na História humana, onde Ele manifesta a consciência de si mesmo, por um processo dialético de desvelamento e autosuperação. É a experiência do Espírito que promove um eterno conhecimento e a exuberância de si, por meio da dinâmica da Natureza, da família, da sociedade e do Estado, sendo que este último é o estágio mais apurado do Espírito. Esse Espírito ganha expressividade em três formas distintas e até certo ponto harmônicas: na Religião, na Filosofia e na Arte.

Se Hegel se pautou numa dinâmica circular desenvolvimentista de Espírito, Giambattista Vico fez um percurso diferente. A experiência com a Sagrado se tornou a parte de uma Nova Ciência da vida civil, isto é, de todos os povos e nações, desde seus primeiros passos. Trata-se portanto de observar a relação da Humanidade com o Sagrado a partir de uma experiência pré-reflexiva, onde as faculdades do entendimento estão por se formar. A experiência do Sagrado compreendida desde o estado de barbárie humana ganha seus traços nas quatro religiões humanas, em que a figura da deidade é o meio para a humanidade bárbara, imersa nos sentidos (a fantasia, a imaginação e o engenho) se tornar Humana. Tal percurso se faz mediado e ordenado pela Providência divina, que sempre ilumina o homem para ser pessoa humana e conservar a si e sua geração, enquanto tal.

Depois desse rápido recorte histórico, pode-se constatar que a Filosofia e o Sagrado, na sua expressão e propriedades características variadas, não estão dissociados em si, mas constituem uma ligação fundamental sem a qual não é possível se refletir sobre a realidade e a totalidade, sem cair no risco de perder a inspiração e experiência primeira e reduzir a Filosofia a pura reflexão. A Filosofia não pode estar dissociada das outras ciências humanas e exatas, pois essa completude totalitária era a sua conjuntura fundamental.

Desde a crise humana promovida pelos males cometidos com a revolução tecnológica e industrial, e com a ditadura militar, pode-se constatar que as ciências passaram a se fragmentar e se dividir. Algumas ciências passaram a ter maior destaque em detrimento de outras. Isso aconteceu pelos interesses dominantes de cada época. Como desde o século XIII a tecnologia e informática vem sendo o interesse determinante da camada dominante de muitos países, é lógico percebermos como algumas ciências foram relegada ao abandono ou até desprezo.

No Brasil o pouco valor que a Filosofia tem é um exemplo disso.  Nas escolas públicas e particulares esta disciplina é a menos valorizada. E a que infelizmente, para muitos, deveria ser a que menos exigisse. Fica em questão por que tanto descaso para financiar e promover tal ensino filosófico? A função que mais me toca na Filosofia é a criação de uma consciência esclarecida e que apreenda o máximo, que puder, a realidade, nas suas contradições possíveis de serem mudadas. Essa função tem em vista a dignidade humana. Porém, será que o Estado, as grandes Instituições de educação estão querendo e promovendo isso, o suficiente?  Porque será que a educação é muitas vezes a menos valorizada? Quais forças estão determinando o descompasso e a hierarquização das disciplinas?

Na Grécia a Filosofia era a mãe de todas as ciências, hoje ela é promovida, por uma cultura persistente e ignorante, como um saber para quem não quer nada na vida. Essa visão errônea foi e continua sendo muitas vezes disseminada. Infelizmente a Filosofia ficou no porão do ensino educativo. Daí é preciso conceber a tal Ciência divina a sua vitalidade atual.

Se antes a Filosofia estava ligada inseparavelmente com a Teologia hoje vemos a triste tentativa de separação e desprezo das duas. O mercado tecnológico não promove a ligação e a valorização das duas. Hoje perdemos muito nisso, pois se desvincularmos a Teologia da Filosofia perdemos a fonte originária do conhecimento humano e do sentido mais profundo da vida. A separação das duas é como andar sem uma das pernas. O corpo não se sustenta.

Um grande exemplo que temos dessa vitalidade da Filosofia com a Teologia está a Igreja Católica. O vínculo entre essas duas Ciências é profético e sempre novo. Na Alegria do Evangelho e na Laudato Si’, dentre outros documentos da Igreja, vemos o quanto de valor e autenticidade existe no entrelaçamento entre esses dois saberes. Essa originalidade faz com que a Humanidade reveja sua jornada e refaça os seus caminhos para a plenificação do ser Humano e a abundante felicidade no encontro com o Sagrado. Sem, mais delongas: o mundo precisa de questionar o modo atual de vida que não dignifica o ser humano e encontrar novos caminhos que não sejam apenas reflexão ou mudança aparente, mas um encontro com o sentido profundo da existência que se depara com o Sagrado, o Absoluto, para a plenificação do Homem.

 

*Noviço Redentorista, Professor licenciado pela Universidade Estadual do Ceará.