GRUPO SOCIALIZANDO

Início » IHU

Arquivo da categoria: IHU

Anúncios

A web e a democracia da credulidade

 

IHU – Instituto Humanitas Unisinos 

Grupo Socializando

Crédulos oniscientes e conspiradores desconfiados. É o paradoxo da civilização da informação. Sabemos cada vez mais, mas entendemos cada vez menos. E a realidade nos escapa por todas as partes por excesso de detalhes. Inundados com imagens, notícias, informações, agências, newsletters, fóruns, chats, blogs, pop-ups, que a web derrama sobre nós como um rio imparável. Um download transbordante que bloqueia o nosso processador crítico.

E assim, incapazes de selecionar e de avaliar, bebemos tudo o que nos é trazido pelas correntes da internet. O resultado é que o aumento dos conhecimentos e dos progressos tecnológicos, em vez de potencializarem as defesas da razão, provocam um retorno maciço de rumores incontrolados, crenças infundadas, verdades alardeadas. E charlatanismos despudorados.

Consequentemente, o abuso da credulidade popular, que parecia coisa de outras tempos, de sociedades pré-escolares, já superada pelo progressos dos conhecimentos, está se tornando novamente um fenômeno tristemente atual. Com o favor da web, que pulula de falsos cientistas e de autênticos vigaristas. Curandeiros, vendedores, camelôs, convencedores, arruaceiros, falastrões, pregadores, mental trainers, somatopsicólogos, videntes digitais e outros traficantes de fraudes que se assemelham tanto aos impostores que enfureciam a sociedade pré-iluminista. Aqueles que vendiam em praças públicas os seus específicos, ou seja, preparados milagrosos capazes de parar o tempo, vencer as doenças, restaurar o vigor do eros, fazer ficar rico.

Como o Dr. Dulcamara, protagonista do Elisir d’amore, de Gaetano Donizetti, que se orgulha dos portentos infinitos do seu específico “simpático, prolífico, que move os paralíticos, manda para casa os apopléticos, os asmáticos, os asfícticos, os histéricos, os diabéticos”.

Até o fim do século XVI, publicavam-se tratados para alertar as pessoas contra os falsos doutores. Eles eram chamados com desprezo de “catedráticos de novas ciências”. O célebre médico romano Scipione Mercuri escreveu naqueles anos um livro intitulado Dos erros populares da Itália, em que dedica um capítulo inteiro aos imbróglios “que são cometidos contra os doentes nas praças”. Porque era justamente no lugar público por excelência que os charlatães colhiam vítimas, entre ingênuos e tolos.

E o seu contemporâneo Thomas Garzoni, na sua obra-prima A praça universal, faz um censo de 544 profissões no mundo, dos quais uma boa parte tem a ver com fraudes e falcatruas. Hoje, a praça universal se deslocalizou para a internet. Onde os charlatães, expulsos da cultura moderna, a da escola, da ciência e das universidades, vingam-se e viralizam a web. Porque, se é verdade, como diz Edgar Morin, que a rede promove uma nova consciência planetária, também é verdade que, ao menos por enquanto, a quantidade de informação disponível online é inversamente proporcional à qualidade. E corre o risco de gerar um niilismo cultural que torna difícil distinguir o verdadeiro do falso.

Como mostrado pelo sociólogo francês Gérald Bronner, a nossa democracia está se tornando a democracia da credulidade. Porque, onde a hierarquia dos saberes desmorona e o princípio de autoridade se pulveriza, povoam as explicações simples e, principalmente, monocausais de uma realidade que, ao contrário, é cada vez mais complexa e multifacetada como a contemporânea. Soluções consolatórias que nos dão a sensação reconfortante de entender alguma coisa, de saber muito, de não nos deixar enganar pelas versões oficiais dos fatos.

Quer se trate de transgênicos, vacinas, segurança alimentar, biológica, corantes, pesticidas, o mínimo denominador comum é uma síndrome de complô que provoca uma desconfiança crescente em relação a todas as autoridades, científicas ou políticas. Somos cada vez bipolares. Por um lado, desconfiados em relação aos vários especialistas, pesquisadores, professores, jornalistas ou estudiosos, e, por outro, prontos para dar fé a todos os rumores que correm na rede.

Assim, o tecido coletivo da confiabilidade e da credibilidade parece estar cada vez mais comprometido. A tal ponto que, na França, onde a ciência é uma fé, e a razão, uma religião, de acordo com um estudo recente, 43% das pessoas pensam que a pesquisa envolve mais riscos do que benefícios.

E, a partir de uma pesquisa da Gallup, deste ano, emerge o fato de que a confiança dos cidadãos estadunidenses nas instituições passou de imponentes 80% dos anos 1960 para alarmantes 10% de agora.

Política, religião, jornais, televisão, escola, universidade, indústria. Não se salva ninguém. Só estão piores os revendedores de carros usados. E cresce exponencialmente o preconceito anticientífico, especialmente sobre temas que tocam teclas sensíveis como a saúde. O caso mais emblemático é o das vacinas, que, depois de nos ter libertado de tantos males, são apontados como a causa de outros tantos males. Uma demonização irrazoável que começou em 1998, quando, de forma incauta, foi publicado na Lancet um artigo infeliz, que depois se revelou fraudulento, do ex-médico Andrew Wakefield, que defendia a existência de uma correlação entre a difusão da vacina trivalente MMR e o aumento do autismo. Era tudo uma farsa.

Mas, apesar das desmentidas do General Medical Council britânico e o repúdio da própria Lancet, que removeu o texto, as vacinas entraram em colapso. Na realidade, parece que o verdadeiro propósito da publicação era o de lucrar com uma vacina alternativa patenteada pelo novo Dulcamara.

Além disso, a Court of Protection inglesa constatou que a mãe de uma das crianças autistas na origem do caso mentiu. Mas o inefável Wakefield voltou recentemente às honras da crônica com o documentário autocelebrativoVaxxed: From Cover-up to Catastrophe [Vacinados: do acobertamento à catástrofe], que, em abril, deveria abrir oTribeca Film Festival, de Nova York, dirigido por Robert De Niro, compreensivelmente sensível ao tema por ser pai de um menino autista. Mas a fraude foi desmascarada por um grupo de cientistas, e De Niro cancelou o filme.

Porém, o risco da vacina, para muitos, tornou-se um dogma 2.0. Até porque são muitos que pensam que, por trás disso, estão apenas os interesses das empresas farmacêuticas. Assim, um mapa de falsas evidências e de pseudoconhecimentos corre o risco de anabolizar a web, tornando difícil distinguir entre verdade e impostura. A todos nós cabe a tarefa de civilizar a rede, fazendo-a sair do estado de natureza digital.

Marino Nicola, antropólogo italiano, professor da Università degli Studi Suor Orsola Benincasa, emNápoles, Itália. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 20-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte: IHU

Anúncios

Acumulação por extermínio

IHU – Instituto Humanitas Unisinos 

Grupo Socializando

“O capitalismo não é uma economia, é um sistema que inclui uma economia capitalista. Em sua etapa atual, o modelo extrativo ou de acumulação por roubo não se reduz a uma economia, mas a um sistema que funciona (das instituições à cultura) como uma guerra contra os povos, como um modo de extermínio ou de acumulação por extermínio”, escreve o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi, em artigo publicado por Rebelión, 09-07-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A evolução da guerra no último século, em relação à população, nos oferece pistas sobre o tipo de sociedade em que vivemos. Até a Primeira Guerra Mundial, os combates aconteciam entre exércitos nacionais, nas barricadas, onde se produziam as grandes carnificinas que inflamaram a consciência operária. Afetavam a população de maneira indireta, em razão da morte massiva de filhos e irmãos. Quando era atingida de forma direta, na maioria das vezes, eram efeitos colaterais do conflito ou, em certas ocasiões, repreensões para fragilizar a moral daqueles que lutavam à frente.

Com a Segunda Guerra Mundial, as coisas mudam de maneira radical. Desde os bombardeios de Hamburgo e Dresden às bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, passando pelo bombardeio japonês a Chongqing e os campos de concentração alemães, o objetivo passou a ser a população. Há um antes e um depois dessa guerra e dos campos de concentração, como destaca Giorgio Agamben, já que tanto o campo como o bombardeio estratégico se tornaram paradigmas da política e da guerra modernas.

Não se trata da aparição da aviação como forma central do combate. Ao contrário, a aviação se torna decisiva porque o objetivo passa a ser a população. O Vietnã é outro ponto de inflexão. É a primeira vez que os mortos estadunidenses são contados por milhares, com um impacto muito maior que nas guerras anteriores. A partir disto, a guerra aérea redobra sua importância para evitar entrar no corpo a corpo com o inevitável saldo de baixas próprias.

A acumulação por pilhagem (mineração a céu aberto, monoculturas como a soja e as grandes obras) tem uma lógica semelhante à guerra atual, não só pelo uso de herbicidas ensaiados na guerra contra o povo vietnamita, mas pela própria lógica militar: desocupar o campo de população para se apossar dos bens comuns. Para despojar/roubar, é necessário tirar do meio essa gente tão incômoda. É a ponderação do capital, uma lógica que vale tanto para a guerra, como para a agricultura e a mineração.

Por isso, é importante se referir ao modelo atual como quarta guerra mundial, assim como fazem os zapatistas, já que o sistema se comporta desse modo, incluindo é claro a medicina alopática que se inspira nos princípios da guerra. Os argumentos do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) se encaixam com os de Agamben, quando destaca que o domínio da vida pela violência é o modo de governo dominante na política atual, principalmente nas regiões pobres do sul global.

A brutal repressão aos professores em Oaxaca mostra a existência de um totalitarismo disfarçado de democracia, que segundo Agamben se caracteriza pela “instauração, mediante o estado de exceção, de uma guerra civil legal, que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas de categorias inteiras de cidadãos que por qualquer razão resultem não integráveis ao sistema político (O Estado de exceção). O mesmo autor nos recorda que a partir dos campos de concentração não há retorno possível à política clássica, aquela que estava focada na demanda ao Estado e na interação com as instituições.

Como denominar uma forma de acumulação ancorada na destruição e morte de uma parte da humanidade? Na lógica do capital, a acumulação não é um fenômeno meramente econômico, daí a importância da análise zapatista que coloca o acento no conceito de guerra. Quero dizer que o tipo de acumulação que o capital necessita no período atual, não pode senão ir precedido e acompanhado estruturalmente da guerra contra os povos. Guerra e acumulação são sinônimos, a tal ponto que subordinam o Estado-Nação a essa lógica.

O tipo de Estado adequado para esse tipo de acumulação/guerra é o ponto fraco daqueles que analisam a acumulação pela desapropriação ou pós-extrativismo. Nestas análises, para além do valor que possuem, encontro vários problemas a ser debatidos para fortalecer as resistências.

O primeiro é que não se trata de modelos econômicos, somente. O capitalismo não é uma economia, é um sistema que inclui uma economia capitalista. Em sua etapa atual, o modelo extrativo ou de acumulação por roubo não se reduz a uma economia, mas a um sistema que funciona (das instituições à cultura) como uma guerra contra os povos, como um modo de extermínio ou de acumulação por extermínio.

O México é o espelho no qual podemos olhar os povos da América Latina e do mundo. Os mais de 100.000 mortos e as dezenas de milhares de desaparecidos não são um desvio do sistema, mas, ao contrário, o núcleo do sistema. Todas as partes que integram esse sistema, desde a justiça e o aparato eleitoral até a medicina e a música (só para apresentar exemplos) são funcionais ao extermínio. Nossa música e nossa justiça (e assim com todos os aspectos da vida) são parte da resistência ao sistema. Estão desprendidas ou separadas do mesmo. Não fazem parte de um todo sistêmico, mas já integram o outro mundo.

A segunda questão é que as instituições estatais foram formatadas por e para a guerra contra os povos. Por isso, não tem o menor sentido dedicar tempo e energias em se incorporar nelas, exceto para aqueles que acreditam (por ingenuidade ou interesse mesquinho) que podem governá-las a favor dos debaixo. Este é talvez o principal debate estratégico que enfrentamos nesta hora sombria.

Em suma, criar e cuidar de nossos espaços e nos proteger dos de cima, sem nos deixar seduzir por seus cenários, se torna a questão vital de nossos movimentos. Recordemos que, para Agamben, os reclusos no campo são pessoas a quem qualquer um pode matar sem cometer homicídio. Esta forma de ver o mundo atual explica melhor os fatos de Ayotzinapa e Nochixtlán  que os discursos sobre democracia e cidadania, que apelam à justiça do sistema.