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A Consciência nos seus diversos percursos: caminhos para a civilização, realização e plenificação humana – I

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Isaias Mendes Barbosa[1]

Alguém já parou pra pensar: por que, na Contemporaneidade, alguns saberes são tidos como mais importante do que outros? Sem desconsidera o valor de cada saber, é no mínimo estranho encontramos no mundo midiático e no sistema educacional público um valor, quase divino, aos saberes das Ciências Exatas (Mecânica- Física- Matemática), ou derivadas, e um desprezo aos das Ciências Humanas (Filosofia-História-Sociologia-Psicologia). Em vista desta imposição preconceituosa e interesseira dos diversos meios de poder e comunicação, outra questão mais específica é surpreendente. O fato de quase não se falar de um tema tão importante e determinante para nós seres humanos: “a Consciência”.  Esta é uma questão que pouco é apresentada, meditada, refletida e debatida no tempo atual. E isso sem contar que, na cultura contemporânea, esse tema é disseminado preconceituosamente, como tema estritamente religioso, alienante, ou como tema de acusação e repressão da felicidade humana. Afim de quebrar essa visão limitada e preconceituosa que se impôs na Contemporaneidade, apresenta-se alguns pontos sobre tal tema que serão apresentados em três partes consecutivas. A primeira destaca 1) A Consciência na tradição filosófica-ocidental; a segunda explana 2) A Consciência a partir da tradição bíblico-testamentária. Por fim, na última parte destacar-se-á 3) A necessidade da Conscientização humanitária na Contemporaneidade.

 

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A Consciência na tradição filosófico-ocidental.

Se na Grécia antiga, o conhecimento era uma dádiva humana, isso não estava dissociado de três principais áreas do conhecimento, isto é, da consciência humana de si (antropologia), da ação prática e jurídica civil (sociologia-ética) e da ação do caráter humano (moral). Em Sócrates a “Consciência” atinge essas três funções de modo conjunto. Por isso se observa tanto o ponto antropológico de sujeito: “Conhece-te a Ti mesmo!”. Quem não buscava tomar conhecimento inter-relacionado a estas três áreas de saber, dentre outras, era considerado um “Idiota”, pois estava aquém da sociedade, da sua auto-consciência, filosófica-política e moral-ética. Para visão da época, os escravos eram uma das categorias de “Idiotas” porque não se conheciam, não pensavam, não tinham comprometimento social. Se de início o saber é destinado ao conhecimento do homem, isto é, a conciencização de si, e isso levava o mesmo há um compromisso com a realidade e sociedade, por que será que hoje não se fala de “Consciência” e nem de propriedades que a compõe?  A pior coisa que a humanidade pode fazer consigo é perder a sua “Consciência”, e principalmente, sua consciência moral, pois isso implica na perda da sua identidade. Porque será que não se quer falar mais de identidade da pessoa, enquanto ser humano, social e político?

Na tradição filosófica esse tema persiste sobre perspectivas distintas. Até nos Sofistas como Protágoras a “Consciência”, não é desprezada, mas elevada a sua potencialidade antropológica: “o homem é a medida de todas as coisas”, isto é, ele possui uma experiência interna que é que possibilita conhecer e definir por is mesmo a dinâmica cultural da sociedade. Platão chegou a observar a teleologia ideal humana, pela qual ele deveria reger sua consciência: o bem ideal. Aristóteles conduziu a “Consciência” para o seu caminho fundamental “o meio termo”, “o justo meio”, o equilíbrio da prática humana. Nesse percurso era possível o homem encontrar a sua eudaimonia, ou seja, a felicidade. E isso acontece por meio de uma consciência virtuosa. Da era grega clássica para a helenista temas envolvendo a “Consciência” persistem. A questão da alma, do bem, do mal, do bom, do indivíduo perpassa essa trajetória com suas particularidades. A partir desses poucos elementos constituintes da “Consciência” se poderia refletir: na realidade atual estão sendo clarificado, meditado e iluminado esses elementos próprios da “Consciência”? Quais valores virtuosos estão sendo cultivados, vivenciados e estimulados na sociedade?

Uma personagem mística e bastante significativa do advento da patrística é Dionísio, o qual é classificado de suposto autor da obra Livros das Causas. Arrisca-se aqui a dizer sobre tal obra, numa orientação metafísica antropológica, que a comunidade dos diversos seres estão em diversas relações, a tal ponto das inteligências compreenderem a si mesma a partir de uma integração  com a Inteligência fundamental, o Uno. O relevante seria observar que cada ser possui suas propriedades fundamentais em interação com outros seres. Dessa perspectiva poderíamos intuir que se cada “ser” é possuidor de diversas propriedades como sentidos, alma, corpo, inteligência, a “Consciência” Humana precisaria estar integrada nessa dinâmica.Ou seja, ela estaria nessa relação de comunicação e comunhão para se constituir enquanto tal.

Ora, no período Medieval, Tomás de Aquino amplifica e delineia outros elementos para a “Consciência”. As categorias virtuosas de Aristóteles são retomadas e são acrescentadas novas categorias que orientam a vida humana. As virtudes teologais como, a fé, esperança e caridade são acréscimos tratados por ele. Sua novidade se dá por apresentar duas categorias de “Consciência”: a) a que compreende a verdade na sua essência, b) e a que interage nas circunstâncias variantes da vida. Porém essa Consciência Humana consegue caminhar num percurso mais ordenado ora seguindo as normas da natureza humana ora superando os limites da natureza conforme as luzes espirituais. Apesar da “Consciência” se relaciona com outras faculdades além das sensitivas, existe nela uma finalidade teleológica que transcende a natureza humana e vai além da ordem e da perfeição. Nesse processo se insere novos elementos não tratados na Grécia antiga, isto é, o da graça, da “Consciência” conceitualmente dita, do livre arbítrio e dos dons espirituais. A finalidade da Consciência não só entra no campo contemplativo, mas deve se orientar a partir do bem Absoluto, Deus. Não se trata portanto de uma contradição ou submissão da “Consciência” Humana para com a Consciência Divina, mas de uma constatação da pura Verdade, do puro Bem, e da Vita Beata pela qual a humanidade deve encontrar, desde dentro de si. Nesse aspecto não há um fechamento, heteronomia ou aniquilamento da natureza e consciência humana, mas uma orientação mais rica e dignificante da “Consciência”, pois os seres humanos não só possuem em si sua natureza própria pela qual deve subsistir sua dignidade e subsistência da geração, mas fundamentalmente eles possuem os sinais e virtudes que superam tal estado natural e dignifica o ser humano a condição de semelhança divina.

Na Modernidade, Kant ressalva um elemento significativa da “Consciência” e determinante de sua condução moral, social e até política: a razão. Esta age nas faculdades sensitivas (estéticas) e do entendimento humano para uma decisão que se impõe imperativamente, sem depender das forças das circunstâncias fenomênicas, mas a partir dos princípios irrevogáveis da razão. Da subjetividade para constituição de uma universalidade da “Consciência” é preciso se considerar o imperativo categórico, isto é, os princípios universais e necessários que deve nortear o comportamento humano para a sua autonomia e felicidade. Desse modo é possível deixar uma “Consciência” da menoridade, de fato, ou seja a dependência, para outra da maior idade, a saber, a independência e esclarecimento do sujeito consciente.

Já em Giambattista Vico a “Consciência” não se caracteriza no campo da subjetividade e muito menos do relativismo ou individualismo. Neste pensador se verifica que a “Consciência” atinge sua verdade em conformidade com a certeza de cada época e em um nível coletivo determinado, providencialmente na história das nações desde os seus primórdios. Não é as faculdades do entendimento que determinar os passos fundantes da “Consciência”, mas as faculdades pré-reflexivas, como o engenho, a fantasia e a imaginação. Em Vico se apreende com um fator diferencial da consciência de todos os povos: trata-se, portanto, dos princípios metafísicos- filológicos e filosóficos- que condicionam os povos para a sua Humanidade. Sem tais princípios esta humanidade volta ao seu estado barbárico, ou seja, inumano. Portanto, em Vico é possível um retrocesso da “Consciência”, quando ela não se orienta conforme seus princípios fundamentais. A religião, o matrimônio e a sepultura são, de modo geral, tais princípios humanizantes e da Consciencivilização da sociedade.

Até aqui pode-se observar que o percurso da “Consciência” ganha suas propriedades significativas e expressivas a parti do itinerário fundamental que ela percorre, ora, num caminho para o conhecimento do sujeito, do compromisso comunitário, da ação em vista do bem e por práticas virtuosas, ora numa relação dialogal e comunitária, no âmbito da Vita Beata, da Racionalidade imperativa e, por último, da Humanização das nações. Em suma, observa-se os diversos graus e propriedades da “Consciência” que a cada passo se detém sobre um saber maior, um entendimento mais claro e na busca de amplificar seus passos, observar seus limites e orientar seus horizontes.

 

[1] Licenciado em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará.

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