GRUPO SOCIALIZANDO

A Consciência nos seus diversos percursos: caminhos para a civilização, realização e plenificação humana – II

Isaias Mendes Barbosa* 13566965_1380277941985526_8079302081779231078_n

A Consciência a partir da tradição bíblico-testamentária.

 

Na tradição bíblico testamentária encontramos os passos dessa “Consciência”. De modo geral podemos destacar três modos de “Consciência” que se manifesta no percurso e trajetória do povo de Deus.  É importante observa que na experiência religiosa cristã, desde sua tradição religiosa-hebraico-judaica, a humanidade passa por diversos estágios dessa “Consciência”, ora evoluindo, ora regredindo. Isso porque, as questões histórico-culturais, e os condicionamentos de cada época são determinantes para esse processo. Porém, apresenta-se, aqui, os pontos mais gerais e significativos dessa trajetória.

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Nos escritos do primeiro testamento (Gênese e Êxodo) encontramos vários pontos significativos e determinantes da consciência humana. O primeiro é a experiência de Abraão com Deus (Gn11, 1-3). Neste aspecto a “Consciência” deslumbra um novo horizonte, de desprendimento da terra, da nação e da família. Esse desapego denota um uma nova visão de mundo que Deus quer implantar: a visão de “Povo” que caminha com Deus (Eu farei de ti um grande povo). Há uma maximização da “Consciência” a partir de uma experiência com Deus. Após esse primeiro episódio destaca-se outra personalidade bíblica, a saber, Moisés com a experiência de Deus, na sarça ardente (Ex3, 1-16). Trata-se da experiência central da tradição cristã: a Revelação de Deus.

Nesse contexto a “Consciência” atinge uma criticidade e maturidade fundamental por meio de Deus: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angustias. Por isso desci afim de libertá-lo das mãos dos egípcios”. Apesar da amplitude e progresso dessa revelação, a mentalidade desse povo ainda tateia por caminhos tortuosos. A pretensão da “Consciência” divina reveladas é para uma profunda libertação humana. Não se trata somente da liberdade da escravidão submetida à opressão de um Rei egípcio, mas de tudo aquilo que afasta a humanidade de sua verdadeira felicidade.  Por isso é que se instaura a experiência no deserto: para que o povo tome consciência de seus apegos, dependências das coisas inferiores a Deus e para que o mesmo não exceda na consciência de si, isto é, querer ser como Deus. Moisés guia o povo para essa experiência que ele mesmo experimentou com Deus. Porém, no caminho o povo sem se perceber, ou seja, sem tomar “Consciência de si”, acaba tendo dificuldade para adquirir uma Consciência madura.

Nessa perspectiva e no itinerário da terra prometida e da salvação, o povo entende Deus como único, primeiro e fundamento da criação. Apesar de Deus se revelar, o Mesmo acaba sendo compreendido por muitos a partir da Consciência predominante da época, isto é, a partir da visão patriarcal e dos grandes heróis da época. Toda a compreensão do povo chega na “Consciência” limitada de entender Deus como  Aquele que Reina sobre a terra inteira (Sl47,3), de braço forte, o Senhor dos exércitos (Is 9, 6). Essa “Consciência” é própria da figura de maior valor nas famílias e tradição da época. A figura de Deus como Pai (Is 9,5). Isso não se dá tão claramente no plano conceitual, mas nos atributos de Deus, pois Ele fez a toda a criação (Gn1, 1-31) e quer conduzir seu povo (Ez36, 12). Aqui observamos alguns exageros, para o tempo atual, quanto a compreensão de Deus, pois ele é concebido com um Deus que destrói os inimigos de seu Povo, os pecadores (Am9, 1-10). É um Deus que amaldiçoa e condena os que não seguem seu caminho (Ml1,1-3). É Deus julgador e vingativo.  Esses disparates configuram a “Consciência” do povo de Deus no seu percurso inicial que responde conforme sua mentalidade os conflitos da época.

A conceituação de Deus, propriamente dita, como Pai, ou melhor dizendo, “Paizinho” é nos revelada pelo Jesus Cristo, o Filho de Deus . Em Jesus nazareno encontramos uma revolução significativa na tradição. Pois Deus não é vingativo e nem julgador implacável, mas compassivo e misericordioso (Lc6,36). É um Paizinho que é puro amor e convida seus povo, pelo seu Filho, a ser expressão radical desse amor: doação da vida pela salvação humana. Por Jesus o povo da época apreende uma nova “Consciência” de si, como dom de Deus, como Filhos-adotivos- amados do Pai (Mt6, 4), que precisam cotidianamente ser misericordioso como o Pai do Céu é misericordioso para com eles. O que Jesus nos ensinou sobre Deus foi a mais revolucionária e significativa experiência para sermos Humanos. Uma “Consciência” Humana e iluminada pela luz divina foi a contribuição mais valiosa que Jesus nos ensinou.

Nos quatro Evangelhos podemos perceber o desvelar de uma nova “Consciência” anexada com a consciência de Deus Paizinho. Trata-se daquela expressada por Jesus Cristo. A consciência do Filho de Deus encarnado na História do povo (Jo1, 14) é a grande novidade dos Evangelhos. Em Jesus não só encontramos uma chamada para a “Consciência do amor fraterno”, mas ele próprio é esse testemunho revolucionário. No projeto de redenção do Filho a natureza e “Consciência” humana atinge a sua máxima plena, ou seja, atinge o ponto fundamental, metafísico e ético: no imperativo do amor (Jo15, 12). Essa lei fundamental deve nortear a “Consciência” humana. Porém ela não se desvincula da transcendência, mas só pode manter seu curso se estiver em união e integração com a “Consciência do Paizinho”, pelo Filho. Por isso a persistente interpelação de Jesus para mantermos unidos a Ele como Ele está unido ao Pai (Jo17, 21).   É necessário observarmos que embora a exigência consciencial-prática do amor humano seja limitada, a mesma se inspira a partir da propriedade de identidade divina: o amor ágape. Isto é, Incondicional. Por meio de Cristo se esclarece a “Consciência” humana para algumas características até então esquecidas como o amor-doação, o perdão, a reconciliação, a solidariedade, a inclusão, a fraternidade, a misericórdia e a salvação, ou redenção. Tal “Consciência” tão proclamada na vida e nos ensinamentos de Jesus possui duas finalidades: tornar a sociedade plenamente Humanizante e participante do Reino do Pai. Essa é a novidade revolucionária do fato Cristo tão experimentado e testemunhado pelos seus discípulos, apóstolos e disseminada até hoje.

Por fim, podemos dizer que na História do Povo de Deus há um novo deslumbramento da “Consciência”: é a abertura ao Espírito Santo. Esse novo elemento é dito e transmitido por Jesus enquanto estava com os seus (Jo13,14), porém o momento mais significativo dessa experiência é no ‘Pentecoste’ quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos (At11, 15) e fez com que eles compreendessem o projeto do Pai pela vida, anuncio do Filho, e anunciassem para os que estavam presente a ação amorosa de Deus. Ora, a ação do Espírito Santo na consciência dos cristãos tem a função de esclarecer, amadurecer e encontrar o sentido imanente e transcendente da “Consciência”. Desde modo, esta, mediada por inspiração do Espírito Santo, tem a possibilidade de fazer a pessoa chegar a verdade sagrada e dignificante de si (enquanto imagem e semelhança de Deus) e alcançar os caminhos da vita beata e das verdades eternas da fé cristã. A ação do Espírito na “Consciência aberta” faz a pessoa superar as limitações do tempo e espaço, isto é, faz com que o passado seja entendido no seu significado mais sagrado e dignificante: como ação do amor de Deus na História, busca e resposta humana na mesma para a plena felicidade humana. Deste modo a consciência cristã conseguiu compreender a verdade de sua história de salvação, a partir de um fato fundamental, a presença de Jesus Cristo. O hoje foi vivenciado como realização da promessa de plena realização da “Consciência” e o futuro ficou como continua plenitude da mesma consciência, até seu fim salvífico, ou seja, até a união e contemplação eterna da VERDADE, DO AMOR E DA VIDA.

Em suma, foi na dinâmica do povo de Deus nessa relação com o Pai, o Filho, Jesus Cristo, e o Espírito Santo, que este povo percorreu os diversos itinerário da “Consciência” e conseguiu uma profundidade, largueza e maturidade inigualável na sua história. A consciência do Pai é comprovada pelo Filho e a do Espírito Santo integra essa relação e impulsiona a todos para o que ainda estar por vir. É evidente que no Cristianismo a “Consciência cristã” teve seus percalços, deslizes, limites e defeitos, porém tais falhas da limitação humana não impediu o desenvolvimento e esclarecimentos da “Consciência”. O desafio é não perder de vista esse desenvolvimento e esclarecimento para termos uma realização mais profunda, mais humana e mais sagrada do nosso caminho e praticidade consciencial.

*Licenciado em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará.

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Dinheiro ou preservação?

 

Felipe Feijão

Grupo Socializando conjuntura-ambiental-areas-de-preservacao-no-brasil-2

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, jános primeiros dias de mandato autorizou a construção de dois polêmicos oleodutos criticados por ambientalistas. No mandato de Obama, um dos oleodutos ora decretados havia sido vetado justamente pelo impacto ambiental que ocasionaria.

É possível aqui relacionar essa questão política com a contemporaneidade da ética. Os teóricos atuais que desenvolvem trabalhos no campo da ética, notavelmente se destacam pelo ensaio de uma ética socioambiental, ou seja, uma teoria que descamba na prática e que é uma resposta ao momento vivido pelo mundo hodierno. Em suma, nesse sentido, a ação humana se volta para a realidade da natureza (meio ambiente e seres humanos), e diante das condições constatadas na atualidade vê a necessidade de um princípio de responsabilidade como fala o filósofo Hans Jonas.
Será que as mais variadas manifestações da natureza como desastres e desajuste do natural, alteração climática, derretimento das geleiras, desaparecimento de espécies, dentre uma imensidão, não são suficientemente capazes de alertar o homem que inclusive o próprio homem tem possibilidade de desaparecer?

Há quarenta anos Hans Jonas, em outras palavras, já explicitava um aprendizado da crise (que à época não era como hoje), e acenava para a necessidade de que a concepção crítica da natureza deve provocar mudanças na ação humana. Quando a técnica respaldada e patrocinada pela ambição desmedida de progresso no sentido de aumento do domínio do homem sobre a natureza, venda os olhos inclusive dos que detém nas mãos o poder de ajudar na minoração dos quadros ambientais enquanto condutores de potências econômicas se observa, de fato, que não se pretende mesmo com tanto tecnologia promover o bem da humanidade como um todo e a manutenção das possibilidades de sua continuada existência.

Para além de uma aparente cegueira, o ruído dos motores da civilização tecnicista tem cada vez mais destruído o meio ambiente e parece também ensurdecer o ser humano que se torna incapaz de ouvir a voz da Terra. Sobrepor a economia à preservação das diferentes formas de vida da Terra e aos alertas que quotidianamente se apresentam não como novidade ou como jogo de interesses, resulta na situação atual, que insiste em se preocupar com o aqui e o agora e com o lucro.
A conjugação ainda que em desvantagem gritante da efetivação de medidas políticas com ação responsável que preza pela preservação ambiental agonizante parece um caminho mais sensato.

A Consciência nos seus diversos percursos: caminhos para a civilização, realização e plenificação humana – I


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Isaias Mendes Barbosa[1]

Alguém já parou pra pensar: por que, na Contemporaneidade, alguns saberes são tidos como mais importante do que outros? Sem desconsidera o valor de cada saber, é no mínimo estranho encontramos no mundo midiático e no sistema educacional público um valor, quase divino, aos saberes das Ciências Exatas (Mecânica- Física- Matemática), ou derivadas, e um desprezo aos das Ciências Humanas (Filosofia-História-Sociologia-Psicologia). Em vista desta imposição preconceituosa e interesseira dos diversos meios de poder e comunicação, outra questão mais específica é surpreendente. O fato de quase não se falar de um tema tão importante e determinante para nós seres humanos: “a Consciência”.  Esta é uma questão que pouco é apresentada, meditada, refletida e debatida no tempo atual. E isso sem contar que, na cultura contemporânea, esse tema é disseminado preconceituosamente, como tema estritamente religioso, alienante, ou como tema de acusação e repressão da felicidade humana. Afim de quebrar essa visão limitada e preconceituosa que se impôs na Contemporaneidade, apresenta-se alguns pontos sobre tal tema que serão apresentados em três partes consecutivas. A primeira destaca 1) A Consciência na tradição filosófica-ocidental; a segunda explana 2) A Consciência a partir da tradição bíblico-testamentária. Por fim, na última parte destacar-se-á 3) A necessidade da Conscientização humanitária na Contemporaneidade.

 

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A Consciência na tradição filosófico-ocidental.

Se na Grécia antiga, o conhecimento era uma dádiva humana, isso não estava dissociado de três principais áreas do conhecimento, isto é, da consciência humana de si (antropologia), da ação prática e jurídica civil (sociologia-ética) e da ação do caráter humano (moral). Em Sócrates a “Consciência” atinge essas três funções de modo conjunto. Por isso se observa tanto o ponto antropológico de sujeito: “Conhece-te a Ti mesmo!”. Quem não buscava tomar conhecimento inter-relacionado a estas três áreas de saber, dentre outras, era considerado um “Idiota”, pois estava aquém da sociedade, da sua auto-consciência, filosófica-política e moral-ética. Para visão da época, os escravos eram uma das categorias de “Idiotas” porque não se conheciam, não pensavam, não tinham comprometimento social. Se de início o saber é destinado ao conhecimento do homem, isto é, a conciencização de si, e isso levava o mesmo há um compromisso com a realidade e sociedade, por que será que hoje não se fala de “Consciência” e nem de propriedades que a compõe?  A pior coisa que a humanidade pode fazer consigo é perder a sua “Consciência”, e principalmente, sua consciência moral, pois isso implica na perda da sua identidade. Porque será que não se quer falar mais de identidade da pessoa, enquanto ser humano, social e político?

Na tradição filosófica esse tema persiste sobre perspectivas distintas. Até nos Sofistas como Protágoras a “Consciência”, não é desprezada, mas elevada a sua potencialidade antropológica: “o homem é a medida de todas as coisas”, isto é, ele possui uma experiência interna que é que possibilita conhecer e definir por is mesmo a dinâmica cultural da sociedade. Platão chegou a observar a teleologia ideal humana, pela qual ele deveria reger sua consciência: o bem ideal. Aristóteles conduziu a “Consciência” para o seu caminho fundamental “o meio termo”, “o justo meio”, o equilíbrio da prática humana. Nesse percurso era possível o homem encontrar a sua eudaimonia, ou seja, a felicidade. E isso acontece por meio de uma consciência virtuosa. Da era grega clássica para a helenista temas envolvendo a “Consciência” persistem. A questão da alma, do bem, do mal, do bom, do indivíduo perpassa essa trajetória com suas particularidades. A partir desses poucos elementos constituintes da “Consciência” se poderia refletir: na realidade atual estão sendo clarificado, meditado e iluminado esses elementos próprios da “Consciência”? Quais valores virtuosos estão sendo cultivados, vivenciados e estimulados na sociedade?

Uma personagem mística e bastante significativa do advento da patrística é Dionísio, o qual é classificado de suposto autor da obra Livros das Causas. Arrisca-se aqui a dizer sobre tal obra, numa orientação metafísica antropológica, que a comunidade dos diversos seres estão em diversas relações, a tal ponto das inteligências compreenderem a si mesma a partir de uma integração  com a Inteligência fundamental, o Uno. O relevante seria observar que cada ser possui suas propriedades fundamentais em interação com outros seres. Dessa perspectiva poderíamos intuir que se cada “ser” é possuidor de diversas propriedades como sentidos, alma, corpo, inteligência, a “Consciência” Humana precisaria estar integrada nessa dinâmica.Ou seja, ela estaria nessa relação de comunicação e comunhão para se constituir enquanto tal.

Ora, no período Medieval, Tomás de Aquino amplifica e delineia outros elementos para a “Consciência”. As categorias virtuosas de Aristóteles são retomadas e são acrescentadas novas categorias que orientam a vida humana. As virtudes teologais como, a fé, esperança e caridade são acréscimos tratados por ele. Sua novidade se dá por apresentar duas categorias de “Consciência”: a) a que compreende a verdade na sua essência, b) e a que interage nas circunstâncias variantes da vida. Porém essa Consciência Humana consegue caminhar num percurso mais ordenado ora seguindo as normas da natureza humana ora superando os limites da natureza conforme as luzes espirituais. Apesar da “Consciência” se relaciona com outras faculdades além das sensitivas, existe nela uma finalidade teleológica que transcende a natureza humana e vai além da ordem e da perfeição. Nesse processo se insere novos elementos não tratados na Grécia antiga, isto é, o da graça, da “Consciência” conceitualmente dita, do livre arbítrio e dos dons espirituais. A finalidade da Consciência não só entra no campo contemplativo, mas deve se orientar a partir do bem Absoluto, Deus. Não se trata portanto de uma contradição ou submissão da “Consciência” Humana para com a Consciência Divina, mas de uma constatação da pura Verdade, do puro Bem, e da Vita Beata pela qual a humanidade deve encontrar, desde dentro de si. Nesse aspecto não há um fechamento, heteronomia ou aniquilamento da natureza e consciência humana, mas uma orientação mais rica e dignificante da “Consciência”, pois os seres humanos não só possuem em si sua natureza própria pela qual deve subsistir sua dignidade e subsistência da geração, mas fundamentalmente eles possuem os sinais e virtudes que superam tal estado natural e dignifica o ser humano a condição de semelhança divina.

Na Modernidade, Kant ressalva um elemento significativa da “Consciência” e determinante de sua condução moral, social e até política: a razão. Esta age nas faculdades sensitivas (estéticas) e do entendimento humano para uma decisão que se impõe imperativamente, sem depender das forças das circunstâncias fenomênicas, mas a partir dos princípios irrevogáveis da razão. Da subjetividade para constituição de uma universalidade da “Consciência” é preciso se considerar o imperativo categórico, isto é, os princípios universais e necessários que deve nortear o comportamento humano para a sua autonomia e felicidade. Desse modo é possível deixar uma “Consciência” da menoridade, de fato, ou seja a dependência, para outra da maior idade, a saber, a independência e esclarecimento do sujeito consciente.

Já em Giambattista Vico a “Consciência” não se caracteriza no campo da subjetividade e muito menos do relativismo ou individualismo. Neste pensador se verifica que a “Consciência” atinge sua verdade em conformidade com a certeza de cada época e em um nível coletivo determinado, providencialmente na história das nações desde os seus primórdios. Não é as faculdades do entendimento que determinar os passos fundantes da “Consciência”, mas as faculdades pré-reflexivas, como o engenho, a fantasia e a imaginação. Em Vico se apreende com um fator diferencial da consciência de todos os povos: trata-se, portanto, dos princípios metafísicos- filológicos e filosóficos- que condicionam os povos para a sua Humanidade. Sem tais princípios esta humanidade volta ao seu estado barbárico, ou seja, inumano. Portanto, em Vico é possível um retrocesso da “Consciência”, quando ela não se orienta conforme seus princípios fundamentais. A religião, o matrimônio e a sepultura são, de modo geral, tais princípios humanizantes e da Consciencivilização da sociedade.

Até aqui pode-se observar que o percurso da “Consciência” ganha suas propriedades significativas e expressivas a parti do itinerário fundamental que ela percorre, ora, num caminho para o conhecimento do sujeito, do compromisso comunitário, da ação em vista do bem e por práticas virtuosas, ora numa relação dialogal e comunitária, no âmbito da Vita Beata, da Racionalidade imperativa e, por último, da Humanização das nações. Em suma, observa-se os diversos graus e propriedades da “Consciência” que a cada passo se detém sobre um saber maior, um entendimento mais claro e na busca de amplificar seus passos, observar seus limites e orientar seus horizontes.

 

[1] Licenciado em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará.

CERTEIRO

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CERTEIRO

Quando o tiro pega na veia que pulsava,

E ainda quando a mira é adelgaçada

Em meio ao breu consciente, intuída, mais nada,

É espantoso olhar a pena do alvo que voava.

 

Sim, era esperado, do contrário, não atirava!

Mas é que há um num sei quê ao ver a armada

Conectar da base da pólvora cinza papocada

Com o destino do projétil que também a almejava!

 

Ainda que se repita um infinito e mais,

Realiza quando acontecem, são sempre especiais,

Esses encontros da bala com a caça.

 

A história no sangue da ave,

A memória do superado entrave,

O caçador, comendo, disfarça.

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dIÊGO mELO oLIVEIRA, novos sonetos, 2016

Esticadores de Horizontes

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Felipe Feijão

Grupo Socializando

A Agência de Informação Frei Tito para América Latina (ADITAL) está realizando uma série de 24 reportagens multimídias com o objetivo de expor para a sociedade as diversificadas experiências vivenciadas por jovens na maioria das vezes advindos da periferia de Fortaleza. O nome do projeto provém de uma licença poética de Manuel de Barros, e de fato, muito representa e significa, pois somente através de um trabalho prático de conscientização é possível ampliar a visão de mundo e de futuro do público trabalhado.

A série abrange variados temas como cultura, esporte, cidadania, educação, comunicação, trabalho, violências, saúde e espiritualidade. São apresentados os trabalhos de ONGs que foram protagonistas na fase mais crítica ou de risco da vida dos jovens. É interessante que quando num primeiro momento me deparei com as reportagens um olhar crítico e preconceituoso pareceu querer prevalecer em minhas reflexões, mas ao longo das semanas e ao longo das variadas situações apresentadas, percebi a grande importância do trabalho desenvolvido.

As pessoas entrevistadas por vezes vítimas de desestruturação familiar, morte de pais, saídas de casa, rompimentos com a família, ou simplesmente do condicionamento social no qual estavam inseridas descambaram em privação de liberdade e o relato dessas experiências é impressionante. A partir daí, acredito que analisando equilibradamente a situação de vida e as inúmeras causas para aquela triste situação, o preconceito e o pré-julgamento se esvaem pelo ralo de uma visão conservadora e estritamente encerrada num mundo individualista e particular.

Imaginar que o que aqueles jovens relataram enquanto estavam livres e do padecimento quando estavam em restrição de liberdade, possivelmente ainda é realidade na vida de muitos outros, é uma constatação lamentável. Mas felizmente o trabalho corajoso e entusiasta de ONGs, foi e continua sendo responsável majoritariamente pela reviravolta na vida dos entrevistados. E o mais relevante nessa tarefa foi o fator determinante de conscientização que atuou e que continua atuando agora em jovens que possuem uma nova oportunidade na vida.

As fortes realidades relatadas expressam um testemunho social que precisa ser ouvido e concebido como experiências pessoais que consequentemente influenciaram na vida comunitária daqueles jovens num primeiro momento transtornada e agora, numa melhor condição. Esse testemunho serve de exemplo e reflete a possibilidade de mudança mesmo quando se atravessa caminhos tortuosos pelas mais diferentes causas. Quem sabe o anseio que permeia e que serve de norte para a Esticadores de Horizontes possa atingir, de fato, o poder público com a finalidade de desenvolvimento de políticas voltadas para a juventude e dessa forma se torne o impulso de mais e mais séries como essa. Sem olhar avaliador ou preconceituoso, às vezes a quebra de alguns paradigmas que se sustentam como verdades absolutas, representam uma abertura a amplitude de discussões e de temas que estão aí e esperam reações e envolvimentos.

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Para saber mais sobre o Projeto :

>>> www.esticadoresdehorizontes.com

Escola com partido

Felipe Augustoservletrecuperafoto

Grupo Socializando

 

 

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Diante do afloramento do programa Escola Sem Partido é preciso expor algumas considerações concernentes à temática. A possível inclusão dessa proposta na educação brasileira tem dividido posicionamentos e opiniões. Entretanto, é necessário pela ótica do equilíbrio examinar a real situação das consequências da adoção do programa.

Propor a normatização do comportamento que os professores deverão obedecer quanto à conduta no que diz respeito à exposição de interesses, opiniões, preferências ideológicas, religiosas, políticas e partidárias, é o prenúncio do estabelecimento de um professor robô, programado estritamente para transmitir conteúdos técnicos.

Isso é preocupante porque, querer a vigência da Escola Sem Partido se assemelha ao desejo frustrado de, Inutilmente, estereotipar a dissociação da política das relações sociais. Se por um lado existem acusações de doutrinamento ideológico nas escolas, por outro lado, o que é difícil acontecer é que a transmissão do conhecimento atinja os alunos desprovida das exposições amplas e abrangentes dos professores.

Com efeito, aparentemente a própria estrutura educacional brasileira, carrega marcas diretas ou indiretas da conjuntura social na qual está inserida, daí porque a desvinculação das raízes postuladas na gênese propulsora da manutenção estrutural se torna uma hipótese patética. Felizmente, se a concepção da base construtora da educação num país encontra sua mola de impulso não somente na promoção de um ou outro governo temporal, a constatação de um alicerce firmado no livre debate das ideias se torna justificável.

Se a existência de escolas que formam máquinas para passar no vestibular, já acarreta um possível déficit nos futuros profissionais e nas futuras pessoas que se tornarão o mínimo de valorização que se pode almejar tanto nas escolas que programam máquinas quanto na escola que ainda sobrevive de valores mais humanos é a discussão, o debate e a troca de ideias. Esse deve ser o partido da escola.

Sem doutrinamento ideológico, sem professores fazendo da sala de aula um palanque, embora não haja, de fato, comprovação de tais ocorrências. Mas ainda sob a ótica do equilíbrio, é inevitável que a expressão seja postada, não somente no que se refere ao docente, mas também em qualquer exercício de outra atividade. Vale lembrar que o livre direito de expressão está assegurado e positivado constitucionalmente.

Se, no Brasil, com a liberdade que as escolas dispõem de debate, a configuração política se encontra num estado enorme de desgaste e de descrédito, será que com uma escola sem partido esse quadro seria revertido? É imprescindível tomar partido pela escola para que num futuro próximo o País não se assemelhe a sistemas governamentais fechados e ditatoriais.

Uma esquerda latino-americana sem ecologia cairá de novo na crise dos progressismos

Correio da Cidadaniacorreio da cidadania

Grupo Socializando

 

marx ecologico
Comecemos colocando com clareza algumas questões recentes nas relações entre a esquerda e o meio ambiente na América Latina: os progressismos governantes atualmente são regimes políticos distintos das esquerdas que lhes deram origem. Nessa diferenciação, a incapacidade de abordar a temática ambiental cumpriu alguns papeis-chaves. Assim, qualquer renovação da esquerda só é possível ao incorporar um olhar ecológico. Caso contrário, a esquerda voltará a cair em meros progressismos.

 

As esquerdas latino-americanas, pelo menos desde a década de 70, tiveram enormes dificuldades em aceitar e abordar a problemática ambiental. Uns viam esses temas como excentricidades burguesas importadas do norte; outros consideravam que entorpeceriam planos de industrialização; e, finalmente, estavam os que entendiam que na militância, por exemplo, nas fábricas, era inviável atender a questões ecológicas.

 

Mas também existiam alguns grupos que abordavam essas questões por diversas razões. Uns respondiam a demandas cidadãs. Por exemplo: as que partiam de organizações camponesas que denunciavam tanto injustiças econômicas como a contaminação de suas terras e águas. Outros entendiam que uma crítica radical ao capitalismo era incompleta se não fosse considerado o papel subordinado da América Latina como provedora de matérias-primas (ou seja, recursos naturais). Podem se somar outras questões, mas deve-se reconhecer que todos eles desempenhavam papeis secundários no seio da maior parte das organizações políticas de esquerda.

 

As coisas não eram melhores em nível internacional. Fosse em agrupamentos partidários ou na reflexão teórica, a questão ambiental era minimizada ou marginalizada. Houve esforços intensos para jogá-la debaixo dos tapetes. Por exemplo, um marxismo de cunho ecológico (como é a proposta de John Bellamy Foster) ou a insistência em um ecossocialismo (apontado por Michael Löwy) tiveram impactos restritos.

 

Uma mudança substancial ocorreu no final dos anos 90 e princípios da década de 2000. Boa parte do ambientalismo politicamente militante colaborou, apoiou ou participou diretamente de conglomerados das esquerdas mais amplas e plurais que lutavam contra governos conservadores e posturas neoliberais. Em vários países esses grupos ganharam eleições. Houve um aporte ambientalista nas vitórias da Alianza Pais no Equador, do PT e seus aliados no Brasil, do MAS na Bolívia e da Frente Ampla no Uruguai. Em menor medida, na Venezuela.

 

Nos planos daquelas esquerdas se incorporavam temas ambientais, em vários casos com muita sofisticação ao propor mudanças radicais nas estratégias de desenvolvimento, ordenamento territorial ou manejo de impactos ambientais. Uns quantos ambientalistas entraram nesses novos governos e desde então se lançaram algumas iniciativas dignas de nota.

 

O caso mais destacado ocorreu no Equador, onde os militantes verdes colheram algumas conquistas notáveis. Foram essenciais em instalar, por exemplo, a proposta de uma moratória petroleira na Amazônia, não apenas como defesa de sua biodiversidade, mas também como um aporte para a mudança da matriz energética. Eles também representaram um apoio chave no reconhecimento dos Direitos da Natureza na nova Constituição equatoriana, transformando-a na mais avançada do mundo nessa matéria. A esquerda dos países do Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai) não ponderou como devia a questão das inovações ambientais do primeiro governo de Rafael Correa.

 

Mas o problema é que essa relação entre os novos governos e a temática ambiental começou a crepitar. Esses administradores optaram por estratégias de desenvolvimento onde se priorizavam a metas econômicas, às custas de altos impactos ambientais. Suas expressões mais claras foram as monoculturas, a mineração e a exploração petroleira. Foi gerada uma relação perversa, já que à medida que mais se aprofunda esse perfil extrativista, menos podem ser atendidas as questões ambientais, e mais protestos e resistências cidadãs se acumulam. Muitos ambientalistas que estavam dentro dos governos se afastaram e os que permaneceram se desprenderam de seus compromissos com a natureza. Algo similar ocorreu em outras áreas, especialmente nas políticas sociais. É desta maneira que estava em marcha a divergência entre as esquerdas plurais e abertas iniciais e um novo estilo político, o chamado progressismo.

 

A maturação no sentido do progressismo ocorreu em todos os países. Apesar de que em alguns casos se citava Marx ou Lênin, em todos se acentuou a subordinação aos mercados globais como provedores de matérias-primas, os planos de ataque à pobreza se enforcaram, sobretudo em pacotes de assistências monetizadas, e se romperam as relações com muitos movimentos sociais. Esse progressismo não é neoliberal, mas está claro que abandonou os compromissos daquelas esquerdas iniciais em questões como a radicalização da democracia, a ampliação das dimensões da justiça e a proteção do patrimônio ecológico.

 

Hoje se admite que esse progressismo está em crise, como é evidente no Brasil, e inclusive perdeu eleições nacionais (Argentina) e regionais (Bolívia). Mas passou despercebido para alguns que nessa diferenciação entre esquerdas e progressismos a temática ambiental jogou um papel-chave. O progressismo aceitou os impactos ambientais dos extrativismos, já que priorizou como opção econômica a exportação de matérias-primas. Por sua vez, à medida que escalava a resistência cidadã a tais empreendimentos, os regimes passaram a ignorar, rechaçar e até criminalizar as organizações da sociedade que punham em evidência os impactos negativos destes extrativismos.

 

Há muita pouca da sensibilidade social de esquerda em um governo que impõe a comunidades camponesas um projeto de megamineiração ou force a entrada de petroleiras dentro de terras indígenas, ou ameace exilar membros de ONGs que alertam sobre esses impactos.

 

Os progressismos, à medida que mais se distanciam da esquerda, mais se fundem em contradições teóricas e práticas. Não se duvidou, assim, em apelar a misturas bizarras entre citações marxistas e denúncias ao imperialismo, junto de acordos comerciais com empresas transnacionais que levavam seus recursos naturais e humanos. Invocavam o povo, mas não hesitaram em criminalizar os protestos sociais e inclusive em alguns casos passaram à repressão aberta.

 

A lição destas experiências é que a ausência de uma dimensão ambiental na esquerda, na América Latina e neste momento histórico, não constitui um pequeno déficit. Pelo contrário, é um dos fatores que explica porque a esquerda perdeu sua essência para transformar-se em meros progressismos.

 

No entanto, uma esquerda própria do nosso continente deve abordar as questões ambientais porque a América Latina se caracteriza por uma enorme riqueza ecológica. Aqui se encontram as maiores reservas de áreas naturais e as maiores disponibilidades de solos agrícolas. O uso que se faz desse patrimônio ambiental não só envolve as necessidades de nossa população, mas nutre múltiplas cadeias produtivas globais com enormes repercussões geopolíticas.

 

Ademais, uma esquerda do século 21 deve ser ecológica porque a atual evidência indica, sem lugar a dúvidas, que estamos superexplorando esses recursos, que as capacidades do planeta para lidar com os impactos ambientais foram excedidas e problemas planetários como as mudanças climáticas já estão se manifestando. Portanto, pensar uma esquerda sem ecologia seria uma aposta desconectada da América Latina e da conjuntura atual.

 

Finalmente, o compromisso desta nova esquerda está na justiça social e ambiental, onde uma não pode ser alcançada sem a outra. Isto permite um reencontro com muitos movimentos sociais, um redescobrimento dos problemas reais das estratégias de desenvolvimento atuais e um chamado à renovação teórica. É por isso que nessa íntima associação entre a justiça social e ambiental estão os maiores desafios para a renovação das esquerdas na América Latina.

Eduardo Gudynas é analista da CLAES (Centro Latino Americano de Ecologia Social) em Montevidéu.

Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

Fonte: Correio da Cidadania

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